VISTO DAQUI.... NÃO SEI

VISTO DAQUI.... NÃO SEI

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Se o permitires

Um dia já não estarei cá e um dia serei uma simples subtracção no teu Mundo e nesse dia, subtrair-me-ei, deixando-te tudo aquilo que te terei tentado dar ao longo da tua vida, mesmo por vezes contra a tua vontade.

Nesse dia não serei uma estrela no céu porque não estarei lá nem cá. Serei, se o permitires, um sorriso, serei um abraço, serei um ombro, serei aquilo que fui enquanto cá estive, enquanto aprendia a ser o que nunca soube verdadeiramente mas que nunca desisti de tentar saber, ser pai.

Serei um grito, porque também os houve, serei a mão na cara no dia em que a minha paciência se esgotou, com culpa tua mas também com muita culpa minha. Serei o olhar severo, reprovador, mas também cúmplice e orgulhoso. Serei o castigo mas serei também a recompensa, serei a voz grossa que te enervava mas serei também a voz doce que tanto gostavas. Serei a dor da injustiça mas serei também a razão que por vezes encontravas nos meus queixumes.

Serei a mão dada, as cavalitas depois da idade, serei o coração que batia nos teus ouvidos e que não sabias o que era mas te embalava, serei o cheiro que te confortava quando te chegavas a mim, serei o murmúrio que ouvias do teu quarto e te sossegava quando acordavas.

Tive, tenho e terei sempre orgulho no que és, no que te tornaste nesta caminhada nada fácil que é estar aqui, para onde não pediste para vir e onde um dia chegaste a chorar.

Cresceste, dia após dia, centímetro após centímetro até seres aquilo que és hoje que é a base daquilo que serás amanhã mas ainda é e será sempre igual, ao dia em que choraste pela primeira vez.
Talvez não te tenha dito suficientes vezes que te amava, talvez não tenha dito suficientes vezes o que sentia mas sabes, é quase como a luz do dia que volta depois de todas a noites, sabemos que está lá, não pensamos nela, porque ela não nos falha.

Digo “é quase”, porque muitas vezes te falhei, muitas vezes não fui o que precisavas. Não há livros para tudo, não há ensinamentos suficientes no Mundo para aprender a ser aquilo que mais precisavas em cada momento da tua vida. Demasiadas vezes a vida não me permitiu ser aquilo que queria ser ou aquilo que deveria ser para ti. Foi culpa da vida mas também foi culpa minha

Aproveito por isso, este momento, para te pedir desculpas por aquele dia em que não entendi o que te ia na alma, por aquele dia em que te julguei, por aquele dia em que não me apercebi que já tinhas crescido; por todos os dias em que te falhei, por exagero, por omissão, por ausência ou simplesmente porque não soube fazer melhor.


Aproveito também este momento para te dizer que estou aqui e espero ainda estar muito tempo, se o tempo assim o permitir e que vou errar muitas mais vezes se tu assim o permitires.

domingo, 12 de junho de 2016

Sou Rico

Não são necessários escrituras ou empréstimos bancários. Existem lugares espalhados pelo Mundo que são meus. Pertencem-me e ao contrário de outras coisas e outros lugares, estes, nunca me poderão ser retirados.

No mapa das minhas propriedades, estão locais que são de todos, outros que não são de ninguém, mas todos são meus. Em alguns lugares que me pertencem estive meses, noutros apenas minutos e com alguns talvez apenas tenha sonhado mas não deixam de ser meus.

Aquele banco de jardim é meu, aquele pequeno espaço entre as dunas também é meu; também é meu aquele banco onde muita gente escreveu as suas iniciais e aquele quarto de hotel que vou emprestando a outros desde aquele dia em que ficou meu.

É meu aquele lugar de estacionamento banhado pelo luar, é minha aquela pedra junto ao rio; a 45ª laje do chão daquele cais onde estive horas sentado a falar de mim também me pertence.

Não os reclamei, nem quero a sua exclusividade. São meus como são de outros. Não da mesma forma, talvez não com a mesma intensidade, mas com a mesma propriedade com que são meus também são deles

Tenho a sorte de ter lugares meus espalhados pelo Mundo e isso faz de mim um homem rico; uma riqueza que não posso deixar em testamento mas que deixo um pouco todos os dias para aqueles que Amo porque foram estes locais que fizeram de mim o que sou. 

domingo, 5 de junho de 2016

Fiquem vivos

E se amanhã todos soubéssemos a data da nossa morte?

A ideia não é original; vi-a num filme e conseguiu pôr-me a pensar.

Saber a data da morte é algo que infelizmente alguns sabem mesmo se com alguma aproximação e as posturas são várias dependendo do estado de saúde, do espirito mas mais ainda, da proximidade da data.

Aproximam-se daqueles que amam, deixam de perder tempo com gente estupida, fazem aquilo que sempre sonharam fazer…. Tudo coisas que deveriam ser óbvias mesmo sem saber que se vai morrer daqui a pouco.

Todos saberem a data da sua Morte é bastante diferente e colocaria um dilema grande no momento em que duas pessoas se aproximam. “E tu, quando vais morrer?”

Será que escolheríamos as pessoas pela data da morte? Será que condicionaríamos os nossos amores pelo tempo ainda disponível para ambos ou só para o outro?

Será que no início de uma relação isso seria relevante ou só pensaríamos no assunto mais tarde?

 Cartões de cidadão teriam para além da data de nascimento, a data da morte.

“- Desculpa, mas pretendo uma relação longa e morres daqui a pouco tempo” e ela virava-me as costas

Imagino sites a nascer em que as pessoas se relacionariam pela data da morte, criando uma infinidade de Romeus e Julietas. Pessoas que sabem que morrem no mesmo dia da pessoa amada.

“Até que a morte vos separe … ou seja até ao dia 5 de março de 2027 ”, diria o padre no dia do casamento.

“Cavalheiro respeitável procura senhora para companhia até ao dia 18 janeiro de 2019” podia ser um anúncio normal.

Mas não, nada disso é verdade nem será e Não sabemos quando vamos morrer.

Se soubesse gostaria de pensar que não seria diferente do que sou ou melhor dizendo, que não sou diferente do que seria......se soubesse !

Fiquem vivos !


domingo, 29 de maio de 2016

A vida não acontece

O que acontece são “acontecimentos” que não são mais que pontos num daqueles desenhos que fazíamos quando éramos crianças.

A vida tem de ser feita acontecer!

Podemos saltar pontos, acrescentar pontos, podemos simplesmente não desenhar nada, ou podemos unir todos os pontos como a vida nos lhos apresenta e depois lamentar que a vida é ou foi assim….Porque sim!


A vida não é sempre aquilo que queremos; Muitas vezes sofremos e choramos num daqueles pontos que não desenhamos, mas daí, podemos desenhar a linha que queremos e seguir para o ponto seguinte ou para outro qualquer ponto do desenho.

Podemos colorir o desenho ou podemos deixá-lo a preto e branco. A qualidade final do desenho depende em parte dos pontos que nos foram dados, mas depende ainda mais daquilo que lhe acrescentamos. O que acrescentamos somos nós.


Os pontos da vida são “ser” mas as linhas que desenhamos chamam-se “Viver”. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Dá-me



Dá-me algo que me surpreenda

Dá-me algo que eu não espero

Dá-me algo que eu não quero

Dá-me algo que te custe, que te seja caro, que te seja difícil de dar.

Dá-me algo que te possas arrepender de me ter dado.

Dá-me algo que não me queiras dar

Dá-me algo que queiras guardar

Dá-me algo que te faça sofrer

Dá me algo assim

Porque se não for assim


É melhor não dar...

Partida

Quando o despertador tocou não eram ainda 4.30 da manhã. Parecia que tinha acabado há pouco de se deitar; e se o corpo pedia mais descanso, a mente já fervilhava das emoções que ele sabia estarem para vir.

Enquanto fazia um café, calculava mentalmente o tempo necessário para estar a tempo no aeroporto. Antes de se deitar já fizera essas contas: 30 minutos para tomar café, fumar um cigarro e finalmente tomar pequeno-almoço, 30 minutos para tomar banho e vestir-se, 45 minutos para chegar ao aeroporto, 1 hora como tempo mínimo para estar lá ante da voo.

Tudo somado dava cerca de 3 horas com as margens de segurança necessárias a que nada falhasse.

No entanto e porque este voo era demasiado importante, voltava a fazer as contas uma e outra vez, duvidando dele mesmo e da sua capacidade de raciocínio a esta hora da manhã.

Chegou ao aeroporto bem antes da hora que tinha previsto. O ambiente era o típico ambiente das manhãs em aeroportos, com pessoas ensonadas, um quase silêncio barulhento que enchia o hall de entrada iluminado ainda por lâmpadas amareladas e pela pouca claridade que começava já fazer-se sentir.

Verificava de cinco em cinco minutos o seu telemóvel onde estava o bilhete. Dirigiu-se ao seu balcão e fez o check-in despachando as duas malas que trazia. Como segurança,tinha imprimido o bilhete ; não fosse o telemóvel falhar na altura da passagem pelo controlo do aeroporto ou no embarque.

Chegado ao controlo, seguiu os rituais que já cumprira anos a fio, e sem pressas retirou o computador da pasta colocando-o num cesto de plástico azul, colocou o casaco, o relógio e o cinto noutro cesto e atravessou o pórtico sob o olhar de um segurança que pedia que o seu turno acabasse.
Depois de passar pela zona de controlo, dirigiu-se calmamente à sua porta de embarque, no número 33 e chegado lá, sentou-se e fechou os olhos.

Foi quando fechou os olhos que sentiu que estava finalmente a virar uma pagina da sua vida e que daqui para a frente nada seria igual. Despedia-se de dois anos de desemprego, de um casamento acabado e de uma vida em que o desespero se tornara rotina. Ia para outro país, outro Mundo. Um Mundo onde as suas capacidades ainda tinham algum valor e onde poderia finalmente sentir-se útil.

Despedira-se dos filhos no dia anterior com um até já sabendo que o “já” era bem mais que isso e que só os voltaria a ver daqui a alguns meses.

Quando decidira dar este passo sabia que o maior sacrifício seria deixar de ver os seus filhos durante meses e pesou bem a decisão antes de aceitar o convite que tinha recebido. Tentou amenizar a dor pensando que com as novas tecnologias, estaria ao virar de uma chamada de vídeo e que isso poderia minimizar a dor que iria sentir.

Sabia que isso não era verdade mas fingir também faz parte, com fingiu para eles,durante dois anos, que estava tudo bem e que tudo se ia resolver. Não se resolveu e como outros, teve de tomar a decisão que não queria.

Quando começaram a chamar os passageiros para embarcar, sentiu finalmente o peso do que estava a fazer e o seu estômago apertou-se de tal forma que sentiu vontade de vomitar. Olhou mais uma vez para o telemóvel e no seu bilhete digital estava escrito o nome do seu destino em letras que agora, pareciam brilhar e que o cegavam. Mas não eram as letras que o cegavam, eram as lágrimas ainda tímidas que lhe turvavam a vista.

A excitação da manhã transformara-se numa saudade imensa e num peso que lhe curvava os ombros.

Quando o avião finalmente levantou, fechou os olhos e chorou; chorou aquilo que não tinha chorado ainda desde que fora despedido. Chorou as lágrimas, que já velhas, estavam guardadas para este momento. O momento em que dizia Adeus a uma vida que tinha sido bem diferente daquilo que tinha imaginado, anos antes, quando conheceu a Mulher que viria a ser a mãe dos seus filhos. O casamento não aguentou as amarguras de uma vida que um dia tinha sido feliz.


Chorou e depois veio a calma que o adormeceu já o avião sobrevoava o Oceano rumo a ….. Algures, longe daqueles que Amava.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Lado B

Em tempos idos, reinavam os discos de vinil e entre eles, os singles. Para quem não se recorda, naquele tempo não se comprava música online e tínhamos de ir a uma discoteca comprar os discos de vinil. Os singles eram os discos mais pequenos com apenas uma música de cada lado.

Os singles, eram as músicas que serviam de aperitivo para o lançamento de um álbum e eram normalmente aquelas músicas mais fortes que ouvíamos sem parar até ao dia em que o disco passava para as prateleira das coisas que já não ouvíamos e comprávamos outro disco.

O que sempre me fascinou nos singles, era o “lado B”. Sempre achei que as bandas colocavam aí as verdadeiras pérolas, aquelas que os mais comuns mortais não iriam entender e aquelas que ficariam para além do fascínio imediato que as musicas do lado A ofereciam.

O meu fascínio pelo lado B na música, passou para o lado B da vida.

O lado B da vida são aqueles momentos que não sendo percebidos como tal no imediato são verdadeiras pérolas que ficam e resistem à usura do tempo muito melhor que o Lado A, mais visível mas que, como um fogo-de-artifício, desaparece ao som da última explosão.

O lado B pode ser um beijo furtivo, uma tarde de Amor sem velas nem Musica de fundo, Um abraço de despedida ou um simples olhar. O lado B está cheio de momentos que de uma forma indelével nos marcam sem deixar marcas. O lado B, normalmente, não tem lágrimas nem risos; tem olhos húmidos e sorrisos tímidos que vêm do mais fundo e aparecem sem pedir licença.


O meu lado B tem muitos destes momentos que resistiram à usura do tempo e muitas vezes ainda que sem o saber, vivo um Lado B, que de uma forma leve e tranquila, se vai juntar a outros que regularmente me visitam e me deixam um sabor agridoce por não ter percebido mais cedo o que aquele momento realmente era. 

Hoje, mais maduro, sou mais capaz de os identificar e de os viver como merecem mas alguns ainda se escapam entre os dedos para se aninhar no lugar que lhes é devido: no mais fundo da minha alma !