VISTO DAQUI.... NÃO SEI

VISTO DAQUI.... NÃO SEI

domingo, 29 de novembro de 2015

Se eu soubesse

Se eu soubesse escrever, editava um Romance sobre a nossa história e esse livro seria considerado o melhor hino ao Amor. 

Se eu soubesse cantar, gravava uma canção de Amor que estaria no primeiro lugar de todas as rádios durante anos a fio. 

Se eu soubesse pintar, fazia um quadro de ti tão magnífico, que o Mundo inteiro pararia para o admirar e seria disputado pelos melhores museus. 

Se eu soubesse falar, subia a um palanco para te fazer um declaração tão bonita,que seria transmitida em todos os canais ao mesmo tempo, em todas as línguas do Mundo. 

Se eu soubesse jogar futebol, seria Maradona, Pelé, Messi e Ronaldo num só jogador e todos os golos do Mundo ser-te iam dedicados.

Se eu soubesse Amar, ficava contigo até ao resto dos meus dias e faria de ti a Mulher mais Feliz do Mundo.


Se eu soubesse Quem tu és, tinha tempo para ser isso tudo e muito mais, porque tinha parado de te procurar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O que é feio e pobre, sonha com ouro a pensar em cobre

Hoje é mais um dia como os outros, uma página de calendário arrancada, naqueles calendários que já não se fazem. Hoje é ontem e é amanhã, como amanhã será o mesmo dia que foi hoje e será certamente depois.

Já não espero nada. Esperei demasiado tempo por algo que não veio. Sempre achei que na lotaria da vida me tinha saído um bilhete não premiado.

Nasci pobre, nasci feio, nasci longe do Mundo, nasci como se não tivesse nascido. O Mundo seria diferente sem mim? Alguém seria diferente sem me ter conhecido?

As Mulheres que Amei já não se lembram de mim, as pessoas que odiei não deram pelo meu ódio. Ter amado muito conta? Amei Mulheres de forma tão intensa que deixei de comer, deixei de dormir e quase deixei de viver. Se ao menos elas tivessem reparado, se ao menos elas tivessem visto debaixo do meu aspecto, a intensidade do que eu sentia, talvez … talvez elas pudessem ter-me Amado. Mas elas não viram, não repararam sequer como eu tremia na sua presença, não repararam como eu ficava mais feio e pobre quando apareciam tal era o Amor que eu sentia.

Nunca soube lutar por nenhum desses Amores; limitei-me a senti-los e a chorá-los uns após outros, e uns após outros, morreram, e eu ia morrendo com eles. Elas, as mulheres que Amei, amaram homens tão pobres e feios como eu e tiveram filhos igualmente feios e pobres como se fossem ninhadas.

Talvez elas não fossem o que eu imaginava e talvez não as amasse realmente, talvez fosse só a minha forma de pensar que buscava... sem buscar. 

Eu limitava-,e a olhar para o meu bilhete de lotaria e lamentava a sorte de não ter prémio.O prémio de não ser feio e pobre, O prémio de ser alguém.

Com o tempo, deixei de esperar, depois lentamente, e como se fosse uma pequena fuga, o Amor esvaiu-se de mim e junto com ele, apagou-se a pequena chama que ainda fazia de mim um Homem. Hoje sou mais pobre e mais feio do que alguma vez fui.

O Mundo continua como sempre, indiferente à minha presença, indiferente à minha ausência e nele, Homens e Mulheres Amam, Amam como nunca eu amei
.
Feio e Pobre, sobrevivo um dia após o outro e resigno-me ao bilhete sem prémio que me saiu e onde nas costas escrevi um dia que preferia não ter nascido.


nota :  

“O que é feio e pobre, sonha com ouro a pensar em cobre"

Esta frase foi retirada do livro de Gabriel Garcia Marquez “Amor em tempo de Cólera"..

Florentino lutou contra a mediocridade e foi o Amor que lhe deu asas nesse caminho. A frase que retirei do Livro é um hino a essa Luta. Pobre e feio Florentino, sempre soube distinguir o ouro do cobre. O fim é sublime e aconselho a quem ainda não leu, a perder-se nas agonias de Florentino Ariza, no seu Amor por Fermina Daza.


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Prazer da leitura

Abri ligeiramente os olhos sem me mexer, estendi o braço como sempre fazia quando acordava e em vez do teu corpo ainda quente, senti o vazio frio do lençol.

Deviam ser 7 da manhã. O despertador ainda não tinha tocado. Estes minutos que mediavam entre o meu acordar e o toque do despertador sempre foram os melhores momentos do dia. 

No verão, com o lençol aos pés da cama, virava-me e ficava a olhar o teu corpo nu. Conhecia cada curva ligeira, cada protuberância e cada sinal por mais ínfimo que fosse. No inverno, debaixo do édredon que nos cobria, “lia” o teu corpo como se fosse braille e percorria-o com a ponta dos dedos até o despertador tocar.

Nunca sabia se estavas a dormir ou se fingias, para saborear estes momentos à tua maneira. Também teria gostado de ser lida, também teria gostado de ser olhada da forma como eu te olhava cada manhã mas nunca acordavas antes do despertador e se fui lida nunca o soube.

Quando o despertador finalmente tocava, abrias os olhos e virando-te para o meu lado, encaixavas-me naquele espaço que parecia feito para mim e que fazia a minha cabeça posar no teu peito, enquanto os meus braços se enrolavam como que magnetizados. 

Costumávamos ficar assim alguns minutos. Não nos beijávamos, não falávamos, e o único som que eu ouvia era o bater do teu coração que me embalava num ritmo lento.

Por vezes fazíamos Amor. Um amor diferente, mais cerimonial, quase sagrado por ser a essa hora. Nunca soube explicar porque Amar a essa hora da manhã, quando todos se levantavam e estavam a preparar-se para ir trabalhar, era diferente. Só os gemidos se faziam ouvir apesar da casa vazia, como se fossemos perturbar alguma coisa, como se estivéssemos a pecar.

Depois, levantavas-te, ainda em silêncio, enquanto eu ainda me deleitava na tua almofada, absorvendo o teu cheiro, como se fosse uma droga.

Rotina? Sim! Mas daquelas rotinas que nos fazem sentir vivos, que nos fazem sentir diferentes e únicos.

Hoje virei-me para o teu lado depois de sentir o vazio e fiquei a olhar para a almofada. Já não tinha o teu cheiro, mas bastava posar a minha cabeça na almofada fria para que, quase como um fabricante de perfumes, os meus sentidos reconstituíssem molécula a molécula, o aroma que deixavas nela todos os dias. Fechei os olhos e revivi em poucos segundos todos os momentos maravilhosos que tivemos de manhã nesta cama, nesta casa.

Não sei se partiste há muito, não sei se partiste ontem.

 A almofada já teve outras cabeças e o meu corpo, outros corpos, mas nunca mais tive o prazer da “leitura” nem nunca mais deixei o despertador tocar para me levantar da cama......vazia ou não.

domingo, 22 de novembro de 2015

Foda-se

Tenho notado que todos os textos que circulam nos blogues e no fb e que usam terminologia do tipo “foda-se”, ou “puta que pariu” têm muitos acessos.
Será porque as pessoas se revêm naquilo que são formas de expressão que toda a gente usa em alguns momentos mas que por pudor não usamos tanto no dia-a-dia (alguns) ?
Um “Foda-se” é muito mais libertador que um horrível “porra” ou que o ainda mais horrível “Fonix”. Um “foda-se” mostra o que realmente sentimos em alguns momentos e não há palavras no dicionário que o possa substituir.
Tudo isso para fazer um pedido :
Se leem as publicações de “visto daqui … não sei” , partilhem, coloquem gosto, ou critiquem se acharem que está uma merda, Foda-se !!!
Obrigado

Parvos

Estava a chegar a uma esplanada quando a vi. Nos seus trinta e tais, impecavelmente vestida num estilo casual que deixava claro um muito bom gosto. Computador aberto sobre a mesa, um capuccino ainda a fumegar ao lado e uns óculos pretos de massa em cima de uns papéis compunham a pequena mesa de madeira da esplanada.

Olhei discretamente para a sua mão esquerda procurando uma aliança enquanto escrevia algo no teclado, mas sobre o branco dos seus dedos não havia nada.
A sua joalharia limitava-se a uma pequena pulseira entrançada que as crianças costumam fazer para os pais. Uma filha? Uma sobrinha?

O seu cabelo castanho estava apanhado por um lápis para não estorvar o seu trabalho. Eu sempre achei que as mulheres faziam isso como uma mensagem subliminar para quem as vê, ou mais ainda para quem as olha. O lápis mostra um lado despreocupado com a aparência, como se aquele aspecto fosse natural, mas mostra também que é alguém que trabalha e não é fútil. Algo que os homens fazem com o telemóvel, jogando um jogo ou vendo a sua pagina de facebook como se estivessem a ler um mail importante.

Parece que estar numa esplanada sem fazer nada é proibido ou pouco atraente.

Ela sabia que eu estava a olhar (as mulheres sabem estas coisas) e eu nem precisava de disfarçar porque me tinha sentado virado na direcção dela, mas não sem antes olhar para o céu como se aquela posição fosse a única que o sol de fim de tarde permitia.

Por baixo da mesa, tinha as pernas cruzadas de forma obliqua à minha direcção, o que a colocava numa posição que eu achava que seria desconfortável. A saia que não era curta nem comprida deixava antever umas pernas longas e bem torneadas.

O meu café chegou, agradeci a empregada e distraído, despejei meio saco de açucar e mexi durante breves segundos.
Nos breves momentos em que eu baixei o olhar para o café, ela descruzou e voltou a cruzar as pernas ao contrário; era a prova que ela sabia que eu estava a observar.

Passaram-se alguns minutos e eu continuava sem fazer absolutamente nada que não fosse observar, olhando de forma aleatória para todas as mesas mas voltando sempre à mesa dela.

Finalmente. deixei sobre a mesa o dinheiro para o café e levantei-me. Ajeitei o casado e olhei descaradamente para ela procurando um cruzamento de olhar …. Mas nada. Saí pelo lado oposto de mãos nos bolsos, esperando ser observado e caminhei devagar tentando dar um ar de segurança que eu não tinha e fui embora.

Enquanto caminhava pensava que tudo não tinha passado da minha imaginação e que ela estava somente incomodada como o facto de estar a ser observada enquanto fazia algo para o seu trabalho aproveitando esta frescura de final de tarde numa esplanada.Os meus ombros descaíram e apressei o passo.

Naquele momento, a Mulher terminava uma frase naquilo que deveria ser um diário ou algo assim:
“ Ele acaba de se levantar e ir embora. Gostava de ter tido a coragem de lhe sorrir e quem sabe, ele tivesse retribuído... Era tímido, ou simplesmente não me achou interessante o suficiente para me dirigir a palavra ou sorrir. O dia acabou e volto agora para o meu apartamento vazio. Quem sabe amanhã não seja um dia mais feliz.”

Acabou de escrever, fechou o computador, arrumou os óculos e as folhas de papel, tirou o lápis do cabelo e colocou tudo na bolsa. Levantou-se e com o olhar baixo, saiu para o outro lado da rua…


A empregada, parada no meio da esplanada suspirou: “ Parvos” e voltou para dentro.



quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Manuel da Silva Pereira , Um homem de causas !

“Um homem de causas”, poderia estar escrito na lápide. Naquele dia, ninguém queria ou teve vontade de relembrar o passado um pouco tumultuoso do Manel.

A única exigência do Manel tinha sido que quando morresse não se esquecessem do “Da” no nome. Vá se lá saber porquê?

Manel tinha ido para o Ultramar e como muitos outros veio de lá transtornado e com uma pesada herança que nunca o iria deixar até ao fim dos seus dias.
Hoje chamam lhe Stress Pós Traumático de Guerra, naquele tempo não lhe chamavam nada.

 Foi a muito custo que conseguiu retomar uma vida “normal” quando voltou da Guiné em 64.

Lá fez-se homem, se homem quer dizer aprender a conviver com a morte, com a dor e com o sofrimento. O Manel não tinha estofo para viver aquela vida e voltar são e não conseguiu nunca expurgar de dentro de si os episódios que passara naquelas matas. Manel não tinha a capacidade de compartimentar, e desde a sua volta, na sua cabeça, tudo se misturava.

Casara logo após a sua vinda com a noiva que o esperava desde a sua partida. Tinha ficado noivo antes de partir, como muitos outros, porque necessitava manter um elo de ligação com a vida do lado de cá. Se amava ou não, só ele o saberia mas pouco importava agora. No casamento a noiva tinha tido a estranha sensação de casar com um estranho, o tempo viria a dar-lhe razão.

De pessoa alegre e extrovertida, passou a ser uma pessoa reservada, fechada e sobretudo passou a ser um homem de causas mesmo que as causas não fossem as dele. Em pouco tempo tornou-se Comunista. Manel era comunista com o mesmo fervor com que era adepto do F.C.Porto e as duas causas misturavam-se muitas vezes naquela altura. - Eram as causas das Minorias - Ser comunista para o Manel não era defender um regime politico, era ser a favor dos mais desfavorecidos e só aqueles que o conheciam melhor conseguiam aperceber-se dessa ténue mas importante diferença.

O esmorecer da costela comunista, numa altura em que o FC porto já não era minoria e o comunismo já não era papão, levou a que a sua vida acalmasse um pouco.

Tinha sido convidado a reformar-se antecipadamente do banco onde trabalhara e por isso o tempo chegava-lhe para ir ao café do Chico beber um copito de vez em quando. O copito tinha o defeito de lhe soltar a língua e fazer voltar os fantasmas do passado, que 30 anos tinham ajudado a disfarçar. 

Mas quando o Manel sentia chegar os demónios, retirava-se e era com alguma nostalgia e tristeza na alma que voltava para casa, onde a sua mulher o esperava como sempre, com um sorriso e o jantar feito.

Ele passara os últimos 30 anos a lutar contra esses demónios e conhecia-os melhor que ninguém; já os tinha de alguma forma domesticado.

Tivera ainda antes dos cinquenta um ataque cardíaco e esse dia marcara para ele uma mudança brusca na sua vida. Foi como se o seu corpo tivesse dado um aviso aos demónios que se continuassem, não haveria mais corpo para eles se divertirem. Ninguém soube como ele conseguiu a partir dessa data, conviver com os seus demónios; nunca ninguém saberá a que preço e com que sofrimento o terá conseguido.

A verdade é que o Manel ganhara a admiração de muita gente e foi portanto um cortejo fúnebre com muitas pessoas que se dirigiu ao cemitério.

Cemitério esse, que era um lugar que O Manel frequentava com bastante regularidade; passava por várias campas e parava muitas vezes durante bastante tempo perto de pessoas que nem sequer lhe eram chegadas. Porquê essas pessoas em particular?


Só o Manel o saberia explicar mas seguramente que deveriam ter mais a ligá-los que os próprios imaginavam; é que os demónios têm a língua solta e o Manel seguramente sabia coisas que os outros não sabiam. Coisas dos demónios!


segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Foi numa manhã



















Todos os dias e todos os Amores começam de manhã.... 

Foi na noite que Amamos  mas foi de manhã que me fizeste feliz.


Foi com um copo de vinho que falamos, mas foi com um café que dissemos tudo.

Foi à noite que me abraçaste mas foi ao acordar que me tocaste mais.

Foi numa manhã que, sem palavras, me disseste que me amavas.

Foi no vapor do teu banho que escrevi as palavras "Amo-te".

Foi no teu cheiro que de manhã me encontrei quando me tinha perdido em ti nessa noite.

É na noite que te desejo mas é nas manhãs que te Quero.

Foi numa manhã que eu percebi que estavas na minha vida e não na minha cama


Entraste na minha vida em muitas noites mas foi numa manhã que ficaste.